Esse final de semana parei para assistir ao downhill urbano de Santos, prova que rola há 10 anos no Brasil e é alvo de muita discussão. Em vários sentidos. Depois de ver a transmissão fiquei tão decepcionado e chateado que resolvi escrever algo sobre o assunto.
Para começar, uma história: em 2006, me inscrevi para participar dessa corrida e fui com mala e cuia (leia-se, equipe inteira) para Santos. Eu estava animado e tudo ia relativamente bem. Naquele ano, a prova seria trasmitida pela ESPN, ao vivo. Para não me estender demais, vou direto ao assunto: na final - que seria transmitida - lá estava eu esperando para largar, junto com mais alguns atletas. E nessa espera ficamos por umas duas horas, sem informação de nada. Finalmente foi dada a largada. Alguns atletas largaram e eu continuei esperando minha vez. Mas a espera ficou longa demais, vários minutos se passaram. Não sei exatamente porquê, mas meu celular estava comigo. Recebi uma ligação de minha família. Estavam todos preocupados, perguntando o que tinha acontecido, porque eu não tinha descido. Respondi que não tinha descido pois estava esperando e, para minha surpresa, ouvi do outro lado da linha a informação de que já estava rolando a premiação! Pensei: “Como assim? Já estava tendo a premiação e eu sequer tinha descido? Nem eu nem alguns outros atletas!”.
Depois veio a explicação: devido ao tempo limitado de transmissão, os organizadores deixaram apenas alguns atletas descerem. Quando o tempo acabou, eles simplesmente deram a prova por encerrado. Bom, podem falar o que quiser, mas esse comportamento é inconcebível. Tamanha falta de respeito é inaceitável e imperdoável. Não há nada que o justifique. Como atleta e como pessoa, me senti desdenhado e humilhado. E os problemas da noite não pararam por aí. Foram tantos que o organizador do evento saiu escoltado pela polícia, com ameaça de ser espancado.
De Santos eu voltei, contabilizando gastos superiores a R$ 1800,00, dinheiro jogado fora. Pior que o prejuízo financeiro, a péssima sensação de ter sido desrespeitado ao extremo. Quanto à organização, não se preocupou em dar desculpas aos atletas, nem ressarcimento, nem nada. Faltou hombridade, maturidade e respeito do organizador e sua equipe.
Nos anos que se seguiram, muitas vezes conversei sobre assunto. Com pessoas do meio, amigos do organizador, inimigos, pessoas fora do meio, imprensa, pilotos. Mas nada do que me dissseram me fez pensar diferente. A grande desculpa são as circunstâncias da transmissão ao vivo na televisão para o Brasil, em rede nacional de canal aberto, a exigência de "cumprir o horário combinado com a televisão” e blá blá blá.
Ao assistir ao Urbano de Santos nesse último final de semana, vi uma prova totalmente desorganizada, sem cronometragem com tempo real. Com uma transmissão ridícula, sem conteúdo e repleta de babozeiras e informações desencontradas, irrelevantes e que degradam o esporte. Como se aparecer na Globo bastasse. Mas eu digo: e daí? Aparecer desse jeito? Vi narradores torcendo para os pilotos caírem, exaltando o preço das bicicletas como se tratasse apenas de mais um bem de consumo, enfatizando o quanto os pilotos são loucos. Mas não é essa a impressão que queremos que o grande público tenha de nosso esporte.
Eu já tive o privilégio de participar de uma prova de downhill urbano de verdade, o RedBull no Dona Marta, onde tudo foi perfeito, bem feito e positivo para o esporte. Desculpe, não dá nem pra começar a comparar.
Não me venham com churumelas. Vamos apoiar realmente quem merece ser apoiado. Dar respeito a quem te respeita.
Eu nunca mais fui na prova de Santos e garanto: não irei nunca mais. Não julgo ninguém que vai, mas também não entendo pessoas que conhecem essa história e continuam indo. Muita gente reclama todo ano de muita coisa e volta a ir lá competir. Quanto ao organizador, parece uma entidade que se considera grande bem feitor do downhill brasileiro, um verdadeiro salvador. Mas não é essa a verdade. Sua atitude só prejudica o esporte e desrespeita quem se dedica a ele por amor ou profissão ou ambos.
Nunca falei sobre esse assunto publicamente. Tento manter as coisas low profile. Mas tudo tem limites. Duvido que alguém me convença de que estou errado ou que estou de implicância ou qualquer coisa do gênero.
Se você gosta do downhill, pense nisso.
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
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